1º CICLO DE LEITURAS FILOSÓFICAS – “ÉTICA” de Espinosa

Por quê escolher Espinosa para primeiro autor do Ciclo de Leituras Filosóficas? Não seria mais avisado começar “canonicamente” pelo início da tradição filosófica ocidental, talvez Platão, Aristóteles ou mesmo os pré-socráticos? Ou, quando muito, começar pelo início da tradição racionalista em que Espinosa se insere, Descartes?

Começar com Espinosa é, a nosso ver, começar com todos eles. A “Ética” é uma daquelas obras únicas que sintetiza toda uma tradição filosófica atrás de si. Mais que um livro de “bons costumes”, como o seu título pode deixar adivinhar, a “Ética” é um verdadeiro tratado de ontologia que pretende reposicionar o Ser Humano num plano maior e, inclusive, reposicionar Deus num plano maior. A re-leitura que Espinosa faz de conceitos antigos (como Substância e Causa de Si), escolásticos (como Deus e Eternidade) e modernos (Liberdade, Espírito-Corpo) e a forma como os problematiza para retirar deles as implicações necessárias até aí escondidas torna a “Ética” um manual de como fazer filosofia, um pensamento que se quer ao mesmo tempo corajoso, crítico, criativo e radical. 

Percorrer com Espinosa as definições, axiomas e proposições da “Ética”, deixando-nos levar pelo seu método geométrico é, em si mesmo, um exercício de confiança nas capacidades de um mestre do pensamento, o “príncipe dos filósofos” como foi  considerado. Mesmo que não aceitemos, ou até nos repudiem, as premissas de que parte ou as conclusões a que chega, não podemos deixar de admirar a forma elegante e aparentemente necessária como nos conduz, em passos seguros mas sempre surpreendentes, do acidental ao essencial, da duração ao eterno, do ponto de vista do Eu ao ponto de vista do Universo. A nosso ver é este o caminho que deve percorrer o filósofo e a filosofia e é por isso mesmo que escolhemos começar este 1º Ciclo de Leituras Filosóficas com esta obra inspiradora. 

Estes Ciclos de Leituras Filosóficas não são aulas ou conferências sobre autores e obras onde se oferecem interpretações mais ou menos aceites das suas ideias e teses. O desafio que lançamos àqueles que queiram mergulhar connosco nesta aventura pela história das ideias é o de se esforçarem por compreender por si mesmos algumas das ideias presentes na obra estudada e que, em diálogo com os outros participantes, contribuam com as suas próprias vivências, interpretações e ideias para novas e refrescantes leituras dos Grandes Filósofos mortos. Só assim a filosofia, ao contrário daqueles, não morre.

Obras de Espinosa

Ética” (em PDF)

“Ethics” (em PDF – tradução inglesa)

“Treatise on Theology and Politics” (em PDF – tradução inglesa)

Sobre Espinosa

Anthony Quinton on Spinoza and Leibniz (vídeo)

Baruch Spinoza – Stanford Encyclopedia of Philosophy (artigo)

Philosophy Bites – “Susan James on Spinoza on the Passions” (podcast)

1ª Sessão – 2 de Março

“13 perguntas”

Após leitura da parte final do “Apêndice” do Livro I da “Ética” o grupo de Leitores avançou 13 perguntas que vão balizar a nossa investigação na próxima sessão. Durante esta semana compete aos participantes lerem o Livro I procurando responder e reflectir sobre as seguintes questões:

1 – Qual a relação entre a existência de Deus e o funcionamento do Universo?

2 – Qual a relação da negação da ideia da perfeição de Deus com a “redução à ignorância”?

3 – Para agir é necessário desejar algo que carecemos?

4 – Se tudo fosse lógico não ficaria o valor da vida diminuído? 

5 – Espinosa considera que aceitar a Vontade de Deus é “querer não saber”?

6 – Deus não é bom nem mau?

7 – O que achamos que as coisas são é o que as coisas são?

8 – O que anula de facto o espanto?

9 – Para Espinosa os sentidos deturpam o real?

10 – É possível conhecer o real apenas pelo entendimento?

11 – Para Espinosa há um lugar “não reprovável para a imaginação?

12 – As coisas têm causa?

13 – A carência de Deus é compatível com a perfeição?

2ª Sessão – 9 de Março

“Algumas respostas”

Conceitos abordados: Deus; Universo; Perfeição; Causa de Si; Antropomorfismo; Substância única; Atributos de Deus (extensão e pensamento); Modos de Deus (bondade, maldade, etc.); Conhecimento adequado e inadequado; Níveis de conhecimento; Erro; Razão; Imaginação; Finitude; Infinitude.

Pergunta 1 – Qual a relação entre a existência de Deus e o funcionamento do Universo?

(Livro I) Prop. XIV; Prop. XV e Escólio

Notas: Para Espinosa a relação de Deus com o Universo é uma relação de identidade. Deus não está fora do Universo como um criado planificador. Deus É o Universo, ora perspectivado pelo atributo do pensamento (Deus) ora perspectivado pelo atributo da extensão (Universo).

Importante focar o Escólio da Prop. XV onde Espinosa nos fala das duas formas de conhecer (pela imaginação e pelo intelecto) e nos diz que apenas concebemos a extensão divisível enquanto conhecemos pela imaginação (o nível mais baixo do conhecimento).

Pergunta 2 – Qual a relação da negação da perfeição de Deus com a redução à ignorância?

(Livro I) Apêndice

Notas: Não há relação. A perfeição de Deus não é negada por Espinosa mas antes pela concepção finalista de Deus que Espinosa ataca na primeira parte do Apêndice (pg 167 – edição Relógio d´Água).

A redução à ignorância é a forma argumentativa (falaciosa) que os defensores da concepção finalista usam para tentar provar a existência de Deus: “Se, por exemplo, uma pedra cair de um telhado [adução de razões para justificar esta queda] até que o interlocutor se refugie na vontade de Deus, i.e., no asilo da ignorância.

Pergunta 5 – Espinosa considera que aceitar a Vontade de Deus é “querer não saber”?

(Livro I) Prop. XVII, Escólio – A analogia com o “cão animal e a constelação cão”.

(Livro II) Prop. XL, Escólio II – Os três níveis de conhecimento.

Notas: “…o intelecto e a vontade não pertencem à natureza de Deus.”

Deus não tem vontade. Essa é uma imagem atropomórfica de Deus.

O mais alto grau de conhecimento é aquele que compreende intuitivamente e aceita a necessidade das coisas e de Deus (ciência intuitiva – o conhecimento intuitivo de Deus).

Logo aceitar a necessidade (não vontade) de Deus é “querer saber” e não o contrário.

Pergunta 6 – Deus não é bom nem mau?

(Livro I) Apêndice

(Livro IV) Definições I e II

 Notas: Segundo Espinosa pensar em Deus como Bom ou Mau é ter uma visão de um Deus finito e limitado, uma visão antropocêntrica que é, simplesmente, uma forma de procurarmos explicar e dar sentido à natureza das coisas. É fruto da imaginação e não de um entendimento esclarecido.

Pergunta 8 – O que anula de facto o espanto?

(Livro II)

Prop. XXXV – A falsidade como uma privação.

Prop. XXXVIII – Como atingir o ideal racionalista de conhecimento adequado.

Prop. XL, Escólio II – Os três níveis de conhecimento.

Prop. XLII e XLIII – Verdade e certeza; a norma da verdade.

Prop. XLIV, Corolário II – O ponto de vista da eternidade.

Prop. XLVI – Confiança nas capacidades da razão.

Prop. XLVII, Escólio – Onde Espinosa afirma algo que nunca nenhum filósofo antes dele foi capaz.

Notas: Aqui começamos a perceber a ideia de Espinosa de que o conhecimento intuitivo de Deus vê as coisas sob o aspecto da eternidade (e não sob o aspecto da duração) e que só esse é o conhecimento adequado que nos pode levar à compreensão do Todo que é Deus ou o Universo. Temos, no entanto, de esperar pelo final da “Ética” para ver totalmente explicada esta ideia de “conhecimento intuitivo”.

Encontramos as verdadeiras causa do maravilhoso “anulando” a ignorância através da ciência e da filosofia e não através da religião ou da teologia.

Pergunta 9 – Para Espinosa os sentidos deturpam o real?

(Livro II)

Prop. XVII, Escólio – Teoria do erro

Prop. XLI – Conhecimento do primeiro género

Notas: Para Espinosa a “experiência” e o “ouvir dizer” (o primeiro nível de conhecimento) são a única causa da falsidade. Nesse sentido os sentidos deturpam o nosso conhecimento do real se não forem acompanhados por um género superior de conhecimento que o corrija (a razão).  No entanto, por oposição a Platão, por exemplo) Espinosa não acha desejável anular esse primeiro nível de conhecimento. Os sentidos (e a imaginação) são uma condição necessária para o conhecimento.

Pergunta 10 – É possível conhecer o real apenas pelo entendimento?

(Livro II)

Prop. XII – A alma (mente) como ideia do corpo.

Prop. XIV – Sem corpo não há mente.

Prop. XVI – Imaginação, razão e erro.

Prop. XVII, Escólio – Teoria do erro.

Prop. XXI – Relação mente-corpo (uma relação de identidade numa substância única, Deus ou a Natureza – aqui o monismo de Espinosa superou o dualismo de Descartes que defendia a existência de duas substâncias, Pensamento e Extensão, res cogitans e res extensa).

Prop. XXII – Ideias do corpo, ideias das ideias do corpo…

Prop. XXIII – Acontecimentos no corpo são representados como ideias na mente.

Prop. XXVIII – As ideias da afecções em contacto apenas com a Alma são como “conclusões sem premissas”.

Notas: Não é possível conhecer o real apenas pelo entendimento. Qualquer ideia é uma ideia do corpo (ou deriva do corpo) logo não é possível conhecer apenas pelo entendimento sem as afecções do corpo.

Pergunta 11 – Para Espinosa há um lugar não reprovável para a imaginação?

(Livro II)

Prop XVII – A alma não erra porque imagina mas apenas enquanto não é acompanhada de uma ideia que exclui a existência das coisas que ela imagina.

Prop. XXVI – Imaginação, conhecimento adequado e inadequado.

Prop. XXXV, Escólio – Falsidade como privação; Exemplos da liberdade e do sol:  “os homens enganam-se quando se julgam livres…”; “julgamos que o sol se encontra perto de nós quando…).

Prop. XL, Escólio II – Três níveis de conhecimento.

Notas: A Prop, XXXV levanta um problema a Espinosa, a partir da negação da liberdade dos homens como os responsabilizar no sentido de os considerarmos agentes morais? Como é possível desenvolver uma teoria ética num Universo em que tudo (incluindo a mente humana) está determinado sem qualquer espaço para o agor livre?

Espinosa terá de lidar com este problema mais adiante na “Ética”.

Pergunta 12 – As coisas têm causa?

 (Livro I)

Def. I – causa sui (causa de si)

Prop. XI – O “pilar” de toda a “Ética” – Deus existe necessariamente.

 Nota: Enquanto Deus é causa de si mesmo é também causa de tudo. Não enquanto causa anterior (física) mas enquanto causa simultânea (necessidade lógica da existência de Deus, da sua infinitude, existência fora da duração, etc.

 

 Pergunta 13 – A carência de Deus é compatível com a perfeição?

(Livro I)

Prop. XVII, Escólio: “se criasse tudo o que tem no entendimento exauraria a sua omnipotência, no modo de ver deles, e tornar-se-ia imperfeito.”

3ª Sessão – 16 de Março

Teoria do Conhecimento; Liberdade Humana”

Resumo

Nesta 3ª sessão abordámos a Teoria do Conhecimento que Espinosa nos apresenta no Livro II da “Ética”. Para o fazer dividimo-nos em grupos, cada grupo leu em simultâneo um pequeno texto escolhido da Ética e produziu uma frase que captasse a ideia fundamental desse mesmo texto. Depois cada grupo apresentou a sua interpretação aos restantes leitores e todos discutímos e comparámos as diversas interpretações ordenando-as por forma reproduzir os passos que Espinosa deu da prova de identidade da substância pensante e extensa (“são uma e a mesma coisa”) até à afirmação da necessidade de todas as coisas no final do Livro II.

Com este método todos puderam participar no esforço colectivo de “decifrar” o pensamento de Espinosa e mesmo aqueles que ainda não tinham lido esta parte da “Ética” sentiram que deram um contributo válido para esta aventura em que nos lançámos de encontrar e compreender Espinosa.

 No fim desta sessão, compreendidas as linhas gerais da Teoria do Conhecimento de Espinosa ficámos com um problema para debater na próxima sessão: como é que o filósofo “abriu espaço” para a Liberdade humana nesta sua concepção totalmente fechada (necessária) do Universo, mente humana incluida, com que acabou de nos presentear?

Seguem os textos propostos (todos retirados do Livro II) e as interpretações sugeridas por cada grupo. Junto também alguns comentários da minha lavra que, espero, vos possam ser úteis.

 Boas leituras espinosianas,

Grupo 1 (Escólio da Proposição VII):

“A substância pensante e a substância extensa são uma e a mesma coisa, sendo Deus o seu motor (imanente ou interveniente).”

Comentário

O primeiro grupo captou bem a ideia fundamental do texto: a identidade entre extensão e pensamento que são, para Espinosa, atributos de uma mesma substância, Deus.

Aqui torna-se bem clara a ideia comum de que a teoria de Espinosa é ao mesmo tempo um Monismo de Substância (Deus ou a Natureza) e um Dualismo de Propriedades (Pensamento e Extensão). Esta teoria tem hoje em dia ressonâncias bem claras em autores que escrevem sobre Filosofia da Mente (Donald Davidson, por exemplo) e foi a forma como Espinosa procurou superar os problemas que Descartes trouxe para a metafísica e a epistemologia modernas ao cindir mente e corpo e atribuir a cada um o estatuto de substância fundamental, nomeadamente Pensamento e Extensão. O problema da interacção mente e corpo foi um desses problemas que Espinosa pretendeu ter resolvido, ou dissipado.

No entanto, para este primeiro grupo, a forma como Deus interage com o mundo (um motor imanente ou interveniente) não ficou totalmente esclarecida, pelo que procuraremos resolver este problema noutra altura.

Esta Proposição VII põe-nos ainda no caminho de uma noção essencial para penetrarmos um pouco mais fundo no espinosismo, a tese de que quando dizemos que a nossa mente percebe algo estamos na verdade a dizer que Deus tem uma ideia. Podemos encontrar esta tese no Corolário da Proposição XI e chegados aqui é legítimo perguntarmos como é que sendo Deus perfeito (logo, não erra) e sendo Ele tudo o que há, pode existir o Erro? É desta forma que Espinosa nos abre a porta à sua Teoria do Erro, tratada pelo Grupo 2.

Grupo 2 (Escólio da Proposição XXXV):

“O erro resulta de uma privação parcial de conhecimento.”

Comentário

Se todas as ideias são ideias de Deus, a única forma de o erro poder existir está em nós não vermos as coisas adequadamente, como Deus as concebe, mas sim de forma “mutilada e confusa”.

Daqui Espinosa pode partir para sua tese de que o conhecimento de Deus é possível desde que sejamos capazes de ter idéias adequadas.

A teoria do conhecimento de Espinosa tem aqui o seu primeiro esboço mas será desenvolvida mais profundamente no Livro V, o último Livro da “Ética”.

Para já, na Proposição XXXVIII Espinosa ainda nos introduz as noções comuns (“as coisas que são comuns a todas as coisas”) como a forma pela qual podemos caminhar no sentido desse conhecimento objectivo e adequado. Espinosa aprofunda essa tesa quando fala dos três níveis de conhecimento na Proposição XL, algo que foi tratado pelo Grupo 3.

Grupo 3 (Escólio II da Proposição XL):

“Existem três níveis de conhecimento. Um 1º nível de conhecimento pela experiência (o que ouvimos dizer, a imaginação e o conhecimento pelos sentidos); um 2º nível de conhecimento pela razão (o conhecimento pelas noções comuns); um 3º nível de conhecimento intuitivo (ciência intuitiva, em que conhecemos Deus de uma forma imediata, num vislumbre.”

Comentário

Nesta Teoria do Conhecimento em três níveis Espinosa não pretende abdicar de nenhum nível como o pretenderam fazer outros racionalistas como Platão em relação às “formas menores de conhecimento”. Para Espinosa a imaginação e a experiência são essenciais ao processo cognitivo, mas esse primeiro nível de conhecimento sem uma ideia (conhecimento de 2º nível) a corrigi-la é propensa ao erro. Espinosa deixa isso bem claro nas Proposições XLI e XLII onde nos diz que “o conhecimento do primeiro género é a única causa da falsidade” e “o conhecimento do 2º e do 3º género ensina-nos a discernir o verdadeiro do falso.

Se terminássemos neste ponto ficaria ainda por demonstrar como somos capazes de identificar a verdade, por outras palavras, falta saber qual é o critério de verdade para Espinosa. E disso ocupou-se o Grupo 4.

Grupo 4 (Escólio da Proposição XLIII):

“A verdade é norma de si mesma.”

Comentário

Para Espinosa, como para Descartes, o facto de sabermos algo com certeza era o que nos garantia que a nossa ideia era verdadeira. Por outras palavras, uma ideia verdadeira envolve certeza absoluta. Desta forma, como foi discutido na sessão pelos Leitores, Espinosa pareceu abrir caminho a um total relativismo quanto à verdade, no sentido em que a certeza de uma pessoa pode ser oposta à certeza de outra pessoa e, nesse caso, ambas teriam um conhecimento verdadeiro, o que seria contraditório. Mas Espinosa um pouco mais à frente (Escólio da Proposição XLIX) esclarece-nos que “ter a certeza” de algo é diferente de “não ter dúvidas” acerca de algo, e quem diz ter a certeza acerca de algo que não é verdadeiro não tem certeza mas, simplesmente, não tem dúvidas porque não está a ver as coisas de uma forma adequada, i.e., clara e distintamente.

Antes disso, na Proposição XLIV e no seu Corolário, Espinosa diz-nos que é da natureza da razão conhecer as coisas não de uma forma contingente mas necessária, e isto decorre da ideis de que todo o conhecimento claro e distinto da Alma ser uma parte do conhecimento de Deus, ou seja, é necessariamente um conhecimento verdadeiro.

Ao dizer-nos que “é da natureza da razão conhecer as coisas sob um certo aspecto da eternidade” Espinosa opõe ao conhecimento que temos pela razão e pela intuição (“sub speciae aeternitatis”) o conhecimento de primeiro nível, pela imaginação e pelos sentidos (“sub speciae durationis”). Esse conhecimento é, como acabámos de ver, a fonte de todos os erros. Mas, chegados aqui, eis que Espinosa num movimento tanto épico quanto utópico nos leva directamente a uma das afirmações mais espectaculares de toda a “Ética” e, já agora, de toda a Filosofia Ocidental.

Grupo 5 (Escólio da Proposição XLVII):

“A essência infinita de Deus e a sua eternidade são conhecidas de todos.”

Aqui Espinosa não se limita a dizer que é possível ao homem atingir o conhecimento absoluto. Para Espinosa o homem é parte da substância divina e já possui, por esse motivo, esse conhecimento Absoluto.

“(…) como todas as coisas existem em Deus e são concebidas por Deus, segue-se que podemos, desse conhecimento, deduzir um grande número de coisas que conheceremos adequadamente…”

Comentário

Esta será a expressão máxima do racionalismo de Espinosa e da sua confiança na razão humana. Nenhum Filósofo antes de Espinosa terá subido tão alto a fasquia quanto à possibilidade humana de conhecimento e é daqui que, a meu ver, vem muito do encanto (e desencanto) de ler Espinosa hoje.

Nota Final

Espinosa termina o Livro II como terminára o Livro I (ver Proposição XXXIII do Livro I), afirmando a necessidade de todas as coisas, incluindo da Alma humana. Na Proposição XLVIII afirma que a Alma não tem a possibilidade de escolher entre o Verdadeiro e o Falso, e na Proposição seguinte diz-nos que na Alma não existe Volição, ou seja, a Alma não tem capacidade de querer ou de não querer alguma coisa.

Com esta afirmação da absoluta falta de capacidade da Alma humana em poder escolher e decidir seja o que for Espinosa deixa-nos com o problema de saber como inserir ética na sua “Ética”, ou seja, de saber como é que podemos responsabilizar o ser humano por aquilo que faz e aconselhá-lo a viver de uma maneira e não de outra, uma vez que tudo parece já estar decidido de antemão, o caminho parece já estar traçado não havendo lugar aqui para responsabilidade ou responsabilização.

Foi neste ponto que ficámos e a partir do qual retomaremos as nossas leituras da “Ética” na próxima sexta-feira.

Até lá.

Sessão 4 – 23 de março

Nesta quarta sessão voltámos a dividir tarefas e, agora individualmente, tratámos de analisar as seguintes partes da “Ética” fundamentais para percebermos os passos que Espinosa dá desde a exploração “geométrica” do domínio das paixões

no Livro III, ao tratamento da servidão humana e à nossa capacidade para nos libertarmos no Livro IV.

Entre parêntsis coloquei as interpretações dos participantes na sessão e em itálico algumas citações do próprio Espinosa. Como habitualmente acrescentei também algumas notas minhas sobre estas partes do texto que, espero, cumpram a sua função e, pelo menos, não os confundam demasiado.

 Para terminar estas nossas sessões conjuntas pela “Ética” de Espinosa julgo que poderá ser clarificador, depois de lidos os Livros III e IV (ou pelo menos as partes aqui referidas)  voltar ao ponto inicial destas nossas leituras espinosianas, o Apêndice ao Livro I, que analisámos na primeira sessão, mas agora iluminados pelas leituras que entretanto fizemos. Ao voltarem a ler esse texto tenham também em mente esta curta passagem do Escólio da Proposição LXXIII:

(…) tudo o que parece ímpio, horrendo, injusto e torpe provém do facto de conceber as coisas de uma maneira perturbada, mutilada e confusa; (o homem livre) esforça-se (…) por agir bem e por se alegrar. Até onde se estende a virtude humana para conseguir isto, e qual é o seu poder, demonstrá-lo-ei na parte seguinte (o Livro V).

Deixo agora a vosso cargo, e responsabilidade, a leitura do Livro V. Lembrem-se que ainda temos uma sessão (além da de amanhã com o Oscar Brenifier) com o Prof. Costa Macedo (em data e local a marcar) que nos poderá ajudar juntar ainda mais as pontas soltas que todos temos da “Ética”.

Gostaria de ouvir as vossas dúvidas e comentários quando acabarem esta vossa “aventura por Espinosa”. Que esta tenha sido apenas a primeira etapa por esta Obra e por muitas outras Grande Obras que estão à nossa espera. Contem com o comigo e com o Clube Filosófico do Porto para vos ajudar a desbravar esse caminho tão denso e tão belo.

Entretanto vemo-nos amanhã na video-conferência “Espinosa e a Prática Filosófica” com o Oscar Brenifier no E-Learning (tentam chegar pelas 21h15, sff).

Abraços,

Tomás

Livro III – Descrição dos Afectos

1)      Prop. II, Escólio – “A Alma exprime-se através da decisão, o corpo através da determinação em identidade e através de uma liberdade limitada pela sua natureza.”

Nesta Proposição Espinosa supera o problema da interacção Alma-Corpo que Descartes havia deixado à filosofia moderna e fá-lo de uma forma, no mínimo, brilhante. Alma e Corpo são entendidos por Espinosa como, respectivamente, uma explicação mentalista e uma explicação fisicalista de um mesmo fenómeno, a substância única que é Deus. É neste sentido que se diz que a filosofia de Espinosa é, ao mesmo tempo, um monismo de substância (Deus) e um dualismo de propriedades (Alma e Corpo) como referímos na sessão passada.

No Escólio desta Proposição II Espinosa parece querer não só rejeitar a noção cartesiana de uma mente que comanda o corpo (“o fantasma na máquina” como mais tarde caricaturou Gilbert Ryle em “The concept of mind”) mas também indicar que o corpo terá alguma supremacia sobre a mente, como o tratamento que dá à diversas emoções ao longo do Livro III claramente indicam. É essa intensão que se esconde quando Espinosa escreve que ninguém, na verdade, até ao presente, determinou o que pode o corpo.

2)      Prop. IX, Escólio – “O desejo é o motor do agir.”

VontadeApetite e Desejo também são entendidos como diferentes expressões da mesma realidade. Essa realidade é aquilo a que Espinosa chama “conatus”, um esforço de qualquer ser em “perseverar no seu ser.” Esse esforço quando se refere à Alma dá-se o nome de Vontade, quando se refere ao Corpo dá-se o nome de Apetite. Já por Desejo Espinosa entende a consciência do Apetite. Mais à frente iremos perceber que as acções (correctamente) motivadas pelo Desejo só podem conduzir ao Bem.

3)      Prop. XI, Escólio – “Alegria, Tristeza e Desejo são as afecções primárias.”

Destas três afecções primárias nascem todas as outras. Espinosa dá-nos uma detalhada análise dessas afecções no fim do Livro III (ver Definição das Afecções e Definição Geral das Afecções).

Esta Proposição e Escólio são muito importantes no conjunto da “Ética” pois abrem a porta ao tratamento de uma “liberdade relativa” para o ser humano, a única liberdade possível num sistema (ou universo) causalmente fechado em que tudo é necessário pois está determinado por uma causa imanente de tudo, Deus. Segundo Espinosa alguns modos de Deus podem ter em si as causas da sua actividade e persistência, ou seja, as causas das nossas acções podem ter origem nos desejos e ser, por isso mesmo, causas internas do agir.

Livro IV – O caminho para a libertação

Neste Livro IV encontramos dois eixos argumentativos: i) A nossa inevitável vulnerabilidade às Paixões; ii) A nossa capacidade de, pela razão, superarmos o seu poder destrutivo.

1)      Prefácio – Chamo servidão humana à impotência para governar e refrear as afecções.

 

2)      Prop. LIX– “A Razão pode levar-nos a agir da mesma forma que as afecções (mas só pela razão agimos adequadamente).”

3)      Prop. LXIII – Pelo desejo, que nasce da Razão, seguimos directamente o bem e evitamos indirectamente o mal.

Ao associar o Bem à Razão, Espinosa está também a associar o Bem ao prazer e à Alegria (ver o tratamento que Espinosa dá à Alegria no Livro III).

Na Demonstração desta Proposição LXIII Espinosa afirma que o desejo, que nasce da Razão, só pode nascer da afecção da Alegria.

É desta forma que a teoria ética de Espinosa se afasta da carga punitiva e triste das teorias morais tradicionais. Segundo Genevieve Lloyd em “Spinoza and the Ethics” a “teoria ética” de Espinosa é, pelo contrário, uma “ética da alegria”.  

4)      Prop. LXVI, Escólio – “O homem livre é aquele que faz o que deseja conduzido pela Razão.”

O homem que é movido pela Razão sabe que aquilo que faz é o que deve fazer e, como sabe que isso que faz é o melhor para ele (“sabe ser-lhe primordial”) deseja exactamente aquilo que faz.

Nesta interpretação da Proposição LXVI temos de ler a frase “faz o que deseja” não no sentido de “faz o que escolhe” mas antes “deseja aquilo que faz”. Ou seja, o homem conquista alguma liberdade quando reconhece as causas daquilo que faz e, apesar de não poder escolher fazer outra coisa (não tem liberdade nesse sentido cartesiano de liberdade de escolha) deseja aquilo que tem de fazer pois sabe, pela razão, que isso é o melhor para ele e o conduz ao Bem.

5)      Prop. LXXIII – “A verdadeira Liberdade do homem está em agir segundo a Razão.”

Deixo-vos o encargo de procurarem clarificar e compreender o sentido desta interpretação com a leitura da última parte da “Ética”, o Livro V. Seguem algumas sugestões de leitura desta última parte da Ética:

– Sugestões de leitura do Livro V

Livro V – Acerca do poder da Razão sobre as Afecções e acerca da Liberdade,  Eternidade e Beatitude da Alma

Prop. II, Demonstração – Da possibilidade de controlarmos as afecções suprimindo a ideia a ela associada.

Prop. VI – O conhecimento da necessidade de todas as coisas dá mais poder à Alma.

Prop. X – Espinosa não nos fala em suprimir as nossas afecções (deixaríamos de ser humanos se o fizessemos) mas sim em as “ordenar e encadear.” No Escólio desta proposição Espinosa dá-nos o exemplo da Glória que pode ser uma afecção negativa para aqueles que a buscam demasiado mas pode ser uma afecção positiva se tomarmos controlo sobre ela, isto é, se pensarmos no seu uso correcto e “em vista de que fim deve ela ser procurada e porque meios pode ser adquirida, e não no abuso dela, na sua vaidade e na inconstância dos homens.”

Prop. XV – Intelecto, Emoção e Intuição reunem-se no tipo superior de conhecimento, o “amor intelectual a Deus”.

Prop. XX, Escólio – Breve síntese desta primeira parte do Livro V onde Espinosa nos mostra “o que pode sobre as afecções o conhecimento claro e distinto”. 1º Conhece as afecções; 2º separa a afecção da sua causa externa; 3º as afecções que se referem a ideias claras triunfam sobre as que se referem a ideias confusas; 4º as afecções são alimentadas por um grande número de causas; 5º o ser humano é capaz de ordenar e encadear as afecções segundo a razão.

Prop. XXIII – Nesta Proposição, Demonstração e Escólio Espinosa dá-nos a sua (não muito clara) prova da Imortalidade da Alma. No entanto também aqui temos de ter em conta o “dinamismo conceptual” a que Espinosa nos tem vindo a habituar e temos de compreender esta prova de acordo com a concepção muito própria que a “Ética” nos dá dos conceitos de “eternidade” e “duração”. Espinosa, mais uma vez, afasta-se do significado comum de “Imortalidade da Alma” entendida como entidade que subsiste após a morte do corpo.

Parece-me que Espinosa defende que a Alma é eterna pois pertence necessariamente à essência divina e que apenas nos pertence enquanto “duramos”. Após a nossa morte a Alma continua a existir não num qualquer limbo enquanto entidade independente, mas enquanto ideia de Deus. É neste sentido que ela é eterna e não porque subsiste aquém e além do nosso corpo.

“A eternidade não pode ser definida pelo tempo, nem ter qualquer relação com o tempo”, ou seja a Alma é eterna mas não em relação ao tempo. A eternidade da Alma não pode ser explicada ao nível da duração, mas conhecemos essa eternidade pelo terceiro nível de conhecimento, o conhecimento intuitivo.

Prop. XXIX – Aqui “eternidade” e “duração” são concebidas em termos do ser da Substância e em termos do ser dos Modos, respectivamente. No Escólio desta proposição Espinosa escreve: “As coisas são concebidas por nós de dois modos (…) em relação a um tempo (…) ou enquanto contidas em Deus e que resultam da necessidade da natureza divina.

A meu ver o que Espinosa nos diz aqui é que a Alma tanto pode ser vista de um ponto de vista da eternidade (sub speciae aeternitatis) ou sob um ponto de vista da duração (sub speciae durationis).

Prop. XXX – A nossa Alma, enquanto um Modo de Deus, conhece Deus necessariamente.

Prop. XXXI – Quanto mais nos conhcemos a nós e a Deus mais abençoados somos.

Prop. XXXII – Junção entre Felicidade, Amor Intelectual a Deus e Compreensão

Prop. XXXIII – No mais alto nível de conhecimento há uma aproximação entre emoção e razão. Com Espinosa o conhecimento toma a forma de uma emoção, o “amor intelectual a Deus”.

Prop. XXXVI – O amor que sentimos por Deus ao conhecê-lo por essa forma mais elevada de conhecimento, não é mais que o amor que Deus sente por si próprio. É aqui, nesta identificação do nosso amor por Deus com o amor de Deus por si próprio que se dá a nossa libertação. Enquanto modos de Deus, participamos da sua eternidade. Ainda que, como vimos, não duremos para sempre percebemos “pelos olhos da Alma” que somos eternos, e é aí que perdemos o medo de morrer.

Prop. XXXVIII – Ao percebermos que somos eternos reconciliamo-nos com a morte, não porque nos foi revelada a imortalidade (como acredita o “vulgo”) mas porque simplesmente se retirou importância à morte como um final. A morte não interfere mais com a total Alegria para com o presente.

Prop. XLII – Nesta que é a última proposição da “Ética” Espinosa volta a fazer referência à junção entre a Felicidade, o Amor Intelectual a Deus e a Compreensão. “Quanto mais a Alma goza deste Amor divino, ou seja, da felicidade, tanto mais compreende e tanto maior é o poder que ela tem sobre as Afecções.”

A própria Felicidade, o Amor Intelectual a Deus, é que nos permite refrear as paixões (afecções negativas). Daí Espinosa afirmar que não é por refrearmos as paixões que somos felizes mas é por sermos felizes, por conhecermos Deus, que refreamos as paixões.

Para Espinosa, como já vimos anteriormente, não é anulando as nossas afecções e submetendo-as à razão que nos tornamos virtuosos e livres. Tornamo-nos virtuosos e livres compreendendo as nossas afecções e “ordenando-as e encadeando-as” a nosso favor. Será estúpido tentar nadar contra uma onda gigante que se aproxima, mas podemos tentar ir com ela, surfando-a e divertindo-nos enquanto o fazemos.

Boas leituras,

Tomás

Sessão 5 – 30 de março

Vídeo-conferência com Oscar Brenifier: “Espinosa e a Prática Filosófica”

Deixo-vos alguns dos pontos focados por Brenifier na video-conferência no E-Learning.

Podem ver a gravação completa da sessão aqui:

http://www.livestream.com/elearningcafeuporto/video?clipId=pla_a73eb49e-e4fd-4f25-a9aa-e5944c884455

Para a Prática Filosófica (Cafés Filosóficos, Filosofia com Crianças, Consultas de Filosofia, etc.) não interessa “o que pensamos” mas o “como pensamos”. Também para Espinosa importava mais o “como”.

Oscar Brenifier parece sugerir que devemos ler a “Ética” de uma forma menos preocupada com a verdade daquilo que é dito, com os passos dados entre as proposições, mas mais focado no tratamento que Espinosa dá dos vários conceitos com que trabalha, o encadeamento que lhes dá, as conclusões arrojadas que vai retirando a determinados passos, etc. Esta leitura mais “livre” e menos procupada com a validade lógica dos argumentos e a verdade das suas premissas é talvez a forma mais “rica” de lermos Espinosa, ou pelo menos a mais próxima dos pressupostos que regem a “prática filosófica” epitomizada por Oscar Brenifier.

 – Algumas aportações de Espinosa para a Prática Filosófica segundo Oscar Brenifier:

I) O modo geométrico: uma forma de contrariar a livre associação de ideias comum numa conversa filosófica (e não só). Aqui é importante reter a noção de “vínculo substancial”, a prova que nos faz passar de uma asserção a outra, de uma premissa a uma conclusão, justificar uma relação entre conceitos ou argumentos, etc.

Associado ao “modo geométrico” de Espinosa está também um afã de constante clarificação. Ao contrário do que se passa numa “conversa de café”, numa sessão de filosofia (mesmo que num café) nada deve passar sem ser rigorosamente clarificado.

“O clarificar permite-nos ver como o pensamento se constrói.”

II) Níveis de conhecimento

1º – ouvir dizer;

2º – experiência confusa;

3º – causa-efeito

É muito importante percebermos de que forma conhcemos aquilo que conhecemos (ou julgamos conhecer) e acreditamos naquilo que acreditamos. Com estes vários níveis de conhecimento podemos tomar consciência se realmente sabemos algo e como o sabemos.

Por exemplo, se por um lado poderá ser legítimo acreditar nos nossos pais quando nos dizem que nascemos no Porto, que outras crenças adquirimos por esse 1º nível de conhecimento? E quais são legítimas? Rever e analisar as nossas crenças mais básicas é uma das funções do consultor filosófico, e para essa tarefa estes 4 níveis de conhecimento de Espinosa são uma excelente ferramenta: “Por que acredita nisso? Porque ouviu dizer? Porque tem uma experiência vaga? Porque viu?”

Espinosa fala-nos ainda de um 4º nível de conhecimento, o conhecimento intuitivo. Este nível de conhecimento permite-nos pensar a unidade do pensamento, um pouco como as Ideias Transcendentais de Deus, Alma e Mundo na filosofia de Kant. Não as podemos conhcer mas ajudam-nos a pensar sobre tudo o resto, servem-nos de ideal regulador.

III) Para Espinosa o que é claro é verdadeiro.

A clareza de uma ideia é a sua própria norma de verdade. Oscar Brenifier não “compra” este teoria epistemológica (lembremo-nos de que se interessa pelo “como” e não pelo “o que”) mas sublinha novamente o constante esforço de compreensão e clarificação encetado durante qualquer uma das sessões de prática filosófica que orienta.

 

IV) O poder dos conceitos

Espinosa tinha uma visão dinâmica do pensamento e isso é patente no uso pouco rígdo que faz de conceitos marcadamento aristotélicos, escolásticos ou modernos (Deus, Substância, Liberdade, etc.) e na forma como encadeia argumntos metafísicos com outros epistemológicos para deles retirar conclusões éticas. Esta “facilidade de movimentos” é algo muito difícil de acontecer na investigação que se faz hoje em dia nos departamentos de filosofia por aí espalhados. Aí as ideias, os conceitos e os problemas estão guardados de forma estanque e (quase) sem comunicação entre si.

No que à prática filosófica diz respeito este uso livre (ou desdogmatizado) dos conceitos é uma condição necessária para o pensamento genuíno acontecer. Oscar Brenifier atribui um papel central ao conceito e ao momento da conceptualização como desencadeadores e possibilitadores de pensamento. Entende o conceito como um instrumento para pensar e não como algo com um peso cultural, histórico ou ideológico fixo e determinado. É, muitas vezes, esta flexibilidade conceptual que nos permite ver mais longe do que temos visto até então e foi seguramente essa capacidade de Espinosa para pensar de uma forma diferente da que estava determinada que lhe permitiu ir mais longe que qualquer filósofo antes dele.

Notas Finais e Até Já!

No Livro V da “Ética” Espinosa trata da “via que conduz à liberdade” e do que “pode a razão contra as afecções e o que é a Liberdade ou a Beatitude da Alma” (Prefácio ao Livro V). Nesta parte final da obra Espinosa mostra-nos ainda como interagem os três níveis de conhecimento apresentados no Livro II (Prop. XL, Escólio II).

Ao terminarmos o Livro V sentimos que há algo de paradoxal nas conclusões a que somos levados, as mesmas conclusões que já iam aflorando aqui e ali ao longo de toda a obra. Se seguirmos à risca o que nos recomenda Espinosa, o nosso esforço para atingirmos uma cada vez maior claridade e compreensão levar-nos-á ao aniquilamento da nossa própria individualidade. Esse aniquilamento dá-se quando finalmente compreendemos com clareza que somos simplesmente “Modos” de Deus

No entanto, numa leitura possível de Espinosa, esse reconhecimento não nos deve levar à ansiedade e à desilusão mas, antes, à alegria e à sabedoria.

Jugo ser esta a mensagem positiva que Espinosa nos deixa nas últimas proposições da “Ética”.

Terminada esta aventura pela “Ética” e olhando para trás para o caminho percorrido percebemos que Espinosa nos conduziu até aqui através de uma série de passos ao mesmo tempo seguros mas arriscados. Seguros porque logicamente necessários e blindados pelo método geométrico e arriscados porque acarretavam consequência inaceitáveis para o pensamento da altura. Desde a primeira definição do Livro I, o conceito de Causa de Si, mais à frente identificado com Deus, até ideia defendida no final do Livro V de que o homem pode almejar este conhecimento superior que é o “amor a Deus” (uma síntese dos vários níveis de conhecimento), Espinosa foi muito mais além do que outros antes dele tinham arriscado ir. Espinosa teve a coragem de, a partir do caminho que outros antes dele apontaram retirar conclusões que esses outros nem sequer pensaram, tais como a ideia de um Deus material e substância única, não criador mas imanente, a negação da liberdade humana e até, num certo sentido (o sentido comum) a negação da liberdade de Deus. Pensamos, obviamente, em Descartes cujos princípios filosóficos terão sido, segundo Leibniz, as sementes a partir da qual Espinosa fez crescer as Proposições, Escólios e Corolários da sua “Ética”.

Ler Espinosa é, hoje em dia, contactar com um pensamento que foge aos cânones do filosofar contemporâneo. As submersões alternadas e interligadas entre os planos do ser, do conhecer e do dever ser (metafísica, epistemologia e moral) que fomos sendo obrigados a fazer ao longo deste nosso caminho é algo muito estranho à forma de fazer filosofia actualmente e aproxima-se mais do filosofar primordial de Sócrates e seus antecessores, onde as barreiras entre estas áreas filosóficas ainda não existiam e o homem era a pedra angular de toda a especulação filosófica.

A coragem de Espinosa não será única, muitos outros filósofos antes dele arriscaram morrer pelas suas ideias (apesar de Russel não considerar este um bom princípio), mas a sua inventividade e originalidade devem colocá-lo como único entre iguais e, com certeza, justificar-lhe o título de “Príncipe dos Filósofos” que alguns lhe atribuem. Se é verdade que Espinosa cultivou a sua filosofia a partir das sementes deixadas por Descartes então parece-me boa ideia recuar uns anos e ir ver onde se deu esse semear de ideias e princípios que influenciaram Espinosa, revolucionaram toda a filosofia feita até então e ainda hoje marcam de forma muito profunda as preocupações e a forma como fazemos filosofia.

O nosso segundo Ciclo de Leituras Filosóficas será sobre as “Meditações” de Descartes e decorrerá todas as quartas-feiras de março (18h às 20h) na “Sala da Música” do Museu Soares dos Reis. As inscrições abrem brevemente.

Até Já!


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2 comments on “1º CICLO DE LEITURAS FILOSÓFICAS – “ÉTICA” de Espinosa

  1. […] via 1º CICLO DE LEITURAS FILOSÓFICAS – “ÉTICA” de Espinosa « Clube Filosófico do Porto. […]

    • Boa noite,

      sim, considero a tese de Espinosa “Deus sive natura” um reposicionar Deus num plano maior. Um identificar de Deus com Tudo o que há é a grande arrogância e radicalidade do pensamento de Espinosa. E a sua originalidade está em tê-lo feito a partir da re-leitura de um pequeno grupo de conceitos tratados antes dele por Descartes e pelos medievais (substância, causa de si, Deus, Liberdade, Eternidade…)

      Quanto às motivações de Espinosa para escrever o que escreveu (se percebi bem diz que foi a procura de glória, como outrora Antístenes?) sinceramente interessam-me pouco. Apenas o conteúdo da sua obra, os seus argumentos, a forma como os apresenta, defende e explica é relevante para o pensamento filosófico actual, tudo o resto talvez interesse à história das ideias, mas não à filosofia.

      cumprimentos,
      Tomás Magalhães Carneiro

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